Trabalhadores rurais aguardam a chegada de transporte (ônibus ou van) para serem levados às fazendas de café nas quais trabalham sob condições degradantes e análogas à escravidão. Foto João Paulo Brito/Conectas
A Articulação dos Empregados Rurais do Estado de Minas Gerais (Adere-MG) e o Business & Human Rights Resource Centre (BHRRC) reagiram às críticas feitas pela Mesa Nacional do Café e pelo Conselho Nacional do Café (CNC) ao relatório “Eu não voltaria nunca” – Riscos de Trabalho Forçado nas Cadeias de Fornecimento do Café no Brasil, divulgado em fevereiro deste ano.
Em notas públicas, as entidades reafirmaram a consistência metodológica da pesquisa e defenderam a importância do debate sobre violações trabalhistas na cafeicultura brasileira. Segundo a Adere-MG, as manifestações do setor produtivo tentam desqualificar o estudo e acabam ignorando a realidade enfrentada por trabalhadores submetidos a situações degradantes nos cafezais. “Ao invés de reconhecer tamanho problema que é a precarização quase generalizada nas relações de emprego, o recorrente e endêmico crime de trabalho análogo à escravidão, a mesa perde a grande oportunidade de reconhecer o problema, e, com isso, redirecionar sua atuação, e contribuir verdadeiramente com a mudança cultural das relações arcaicas de trabalho na cadeia produtiva do café no Brasil, o que é lamentável e revoltante”, afirmou a entidade.
As violações trabalhistas em fazendas de café do Sul de Minas Gerais foram denunciadas, em 2018, ao Ponto de Contato Nacional (PCN) pela Conectas Direitos Humanos e Adere. A região é fornecedora pra multinacionais como Nestlé, Jacobs Douwe Egberts (JDE), McDonald’s, Dunkin’ Donuts, Starbucks e Illy. O PCN, responsável por promover as Diretrizes da OCDE para Empresas Multinacionais, aceitou parte das denúncias, mas carece de mecanismos de monitoramento efetivo.
“Eu não voltaria nunca” : O levantamento foi realizado com base nos parâmetros definidos pela Organização Internacional do Trabalho (OIT). A pesquisa ouviu 24 trabalhadores rurais, integrantes de um grupo de 100 pessoas resgatadas de condições análogas à escravidão em fazendas de café. Segundo os dados do relatório, entre os principais problemas relatados estão abuso de vulnerabilidade, jornadas exaustivas, isolamento, condições precárias de moradia e promessas enganosas durante o recrutamento.
Os números revelam a dimensão das irregularidades: 24 trabalhadores disseram ter sofrido abuso de vulnerabilidade; 23 denunciaram condições abusivas de trabalho e alojamento; 19 relataram excesso de horas trabalhadas; e 18 afirmaram ter vivido em isolamento. Em nota ,o BHRC destaca que “cada trabalhador relatou, em média, cinco indicadores de trabalho forçado”.
O relatório aponta que cerca de 67% dos trabalhadores do setor cafeeiro atuam sem carteira assinada, condição que amplia a vulnerabilidade social e dificulta o acesso a direitos trabalhistas, assistência previdenciária e proteção à saúde e segurança no trabalho. As violações trabalhistas na cadeia global de produção do café também foram abordadas no estudo “Trabalho escravo no café: das fazendas às multinacionais”, produzido pela Conectas, que demonstra como falhas estruturais, como a falta de transparência e governança, facilitam a terceirização irregular de mão de obra e o uso de certificações que encobrem condições de trabalho precárias.
Dados do MTE apontam que, entre 2017 e 2025, mais de mil trabalhadores foram resgatados de condições análogas à escravidão em atividades ligadas à cafeicultura no Brasil, sendo mais de 700 apenas em Minas Gerais. O estado também aparece de forma recorrente entre os estados com maior número de empregadores incluídos na chamada “Lista Suja” do trabalho escravo, cadastro do MTE que reúne empresas e proprietários flagrados explorando mão de obra em condições análogas à escravidão.
Os desafios enfrentados pelos trabalhadores rurais na cafeicultura também envolvem riscos relacionados à saúde e à segurança no trabalho. Com o início do período de colheita no Espírito Santo, os registros de acidentes na lavoura têm aumentado. Apenas neste mês, quatro mortes foram registradas no estado: três trabalhadores morreram em decorrência de um incêndio em um alojamento de uma fazenda de café em Vila Valério, e uma quarta vítima morreu após cair de uma escada enquanto abastecia um secador em Jaguaré. Em São Mateus, autoridades locais registram até duas ocorrências por semana relacionadas ao trabalho na lavoura e ao uso de equipamentos agrícolas. Especialistas alertam que a adoção de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), como luvas, óculos de proteção, máscaras, aventais e botinas, é fundamental para reduzir os riscos de acidentes e preservar a integridade dos trabalhadores rurais.
Assista O Custo Humano do Café: Resgatando trabalhadores escravizados nas fazendas brasileiras