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Notícia
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03/11/2026

Relatório aponta falhas da Meta nas eleições brasileiras e cobra transparência e responsabilização

Dossiê reúne pesquisas e investigações de organizações da sociedade civil sobre anúncios políticos, inteligência artificial, recomendações e restrições de conteúdo durante as eleições de 2026

Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado


As eleições brasileiras de 2026 evidenciaram os riscos que as decisões de grandes plataformas digitais representam para a integridade eleitoral e a participação política. Um dossiê intitulado Como a Meta interferiu nas eleições do Brasil reúne pesquisas, investigações e denúncias de organizações da sociedade civil sobre a atuação da empresa durante o processo eleitoral e apresenta recomendações para fortalecer a transparência, a fiscalização e a responsabilização das plataformas.

O material foi elaborado a partir de pesquisas e investigações conduzidas por organizações como Sleeping Giants Brasil, NetLab/UFRJ, Ekō, Anistia Internacional, InternetLab, Data Privacy Brasil e Aláfia Lab, além de registros jornalísticos e documentos de órgãos públicos e organismos internacionais.

O documento sistematiza evidências de possíveis falhas em quatro áreas: aprovação de anúncios políticos ilegais ou enganosos; uso de inteligência artificial (IA) com resultados potencialmente enviesados; ampliação desigual do alcance de conteúdos relacionados a candidatos; e aplicação de restrições a publicações e contas políticas.

Entre os casos documentados estão anúncios com desinformação eleitoral, conteúdos que defendiam intervenção militar e violência política de gênero. Investigações também identificaram anúncios eleitorais promovidos do exterior por atores não autorizados e limitações nos dados disponibilizados pela Meta, que dificultam uma auditoria independente dos gastos e do direcionamento da publicidade política.

Inteligência artificial e moderação sob escrutínio

O documento reúne estudos que identificaram respostas imprecisas e tratamentos distintos em ferramentas de inteligência artificial, incluindo solicitações comparáveis envolvendo candidatos. Em um dos casos, a IA da Meta gerou conteúdo com Flávio Bolsonaro, mas recusou pedidos semelhantes relacionados a Lula.

As investigações também apontaram possíveis assimetrias na recomendação e na distribuição de conteúdos políticos. Embora essas evidências indiquem anomalias que precisam ser esclarecidas, o documento ressalta que números elevados de visualizações ou engajamento, isoladamente, não comprovam favorecimento deliberado por parte dos algoritmos.

Na área de moderação, uma compilação de denúncias organizada pelo projeto CTRL+Z e divulgada pela Agência Pública reuniu mais de mil casos de restrições e banimentos. Entre as publicações com posicionamento político identificável, nove em cada dez eram favoráveis a Lula ou progressistas.

A própria Meta informou ao Ministério Público Federal (MPF) que bloqueou automaticamente 206.910 conteúdos entre 1º e 5 de outubro, período que incluiu o primeiro turno das eleições. O dado evidencia a escala da aplicação automatizada de regras durante o processo eleitoral, mas não esclarece quais grupos políticos foram mais afetados.

Evidências internas e questionamentos internacionais

O documento também reúne registros internos da empresa, investigações jornalísticas e manifestações de organismos internacionais que reforçam a necessidade de esclarecimentos.

Mensagens internas obtidas pela Folha reconheceram restrições que afetaram contas de Lula, enquanto outros registros documentaram problemas de visibilidade em buscas, stories e comentários. O Conselho de Supervisão da Meta também criticou falhas recorrentes na aplicação das regras e pediu maior transparência.

Em 21 de outubro, relatores especiais das Nações Unidas manifestaram preocupação com o papel da Meta nas eleições brasileiras e com a possibilidade de tratamento desigual das campanhas de Lula e Flávio Bolsonaro. Os especialistas solicitaram a revisão dos sistemas de inteligência artificial e moderação da empresa, além do cumprimento dos Princípios Orientadores da ONU sobre Empresas e Direitos Humanos.

A Meta, por sua vez, atribuiu os problemas a incidentes técnicos e negou favorecimento político.

Transparência e responsabilização são fundamentais para a democracia

O documento destaca que a identificação de falhas não significa, necessariamente, comprovação de intenção política ou de impacto sobre o resultado eleitoral. Para esclarecer essas questões, são necessárias investigações independentes, acesso a dados e preservação dos registros internos das plataformas.

Entre as recomendações estão a realização de auditorias independentes, a disponibilização de dados publicitários verificáveis, a garantia de tratamento igualitário entre candidaturas, a criação de mecanismos efetivos de recurso e a preservação de evidências sobre restrições e remoções de conteúdo.

O material também defende que as investigações sejam transformadas em ações públicas e institucionais, com participação da sociedade civil, de jornalistas, pesquisadores e autoridades eleitorais.

A experiência brasileira demonstra que a integridade eleitoral não depende apenas das instituições tradicionais. As plataformas digitais exercem influência direta sobre a circulação de informações e a participação política, o que torna sua transparência e responsabilização elementos essenciais para a proteção da democracia e dos direitos humanos.


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