Casas ficam submersas após o transbordamento do rio Taquari, em Encantado (RS). **Crédito: Gustavo Ghisleni/AFP**
O mundo se aproxima de um marco climático que, até pouco tempo, parecia distante: a ultrapassagem do limite de 1,5°C de aquecimento em relação aos níveis pré-industriais. Segundo o relatório Limiting Overshoot: Navigating exceedance of 1.5°C and pathways towards return, publicado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), o planeta deve superar esse patamar ainda nesta década.
A partir desse cenário, a discussão climática ganha uma nova dimensão. A questão não é apenas evitar a ultrapassagem do objetivo de 1,5°C estabelecido pelo pelo Acordo de Paris, mas limitar o quanto e por quanto tempo as temperaturas permanecerão acima desse nível e reduzir os impactos dessa trajetória sobre pessoas, comunidades e ecossistemas.
O chamado overshoot, ou ultrapassagem, descreve uma trajetória em que a temperatura global supera 1,5°C, atinge um pico e, posteriormente, começa a cair. O relatório do PNUMA aponta esse caminho como uma possibilidade para reduzir os riscos associados ao aquecimento e, eventualmente, retornar a níveis inferiores a 1,5°C.
A temperatura global já se aproxima de 1,4°C de aquecimento causado pela atividade humana e aumenta cerca de 0,25°C a cada dez anos. Segundo o relatório, restam aproximadamente 130 bilhões de toneladas de CO₂ no orçamento de carbono para manter em 50% a chance de limitar o aquecimento a 1,5°C. Considerando as emissões atuais, de cerca de 40 bilhões de toneladas de CO₂ por ano, esse orçamento pode se esgotar em aproximadamente três anos.
Mesmo no cenário mais otimista de implementação de compromissos e políticas climáticas, analisado pelo PNUMA, o aquecimento pode atingir um pico próximo de 1,8°C. Mantidas as políticas atuais, a projeção mediana chega a 2,6°C até 2100.
A diferença entre 1,5°C, 1,8°C ou 2°C pode parecer pequena quando expressa em números. No contexto climático, porém, cada décimo de grau representa o aumento da intensidade e da frequência de riscos que atingem populações e territórios de maneira desigual, além da aproximação de pontos de não retorno, como por exemplo a savanização da Amazônia.
O limite de 1,5°C, estabelecido pela ciência e formalizado no Acordo de Paris como parte do esforço internacional para manter o aquecimento global bem abaixo de 2°C e perseguir esforços para limitá-lo a 1,5°C. A ultrapassagem desse patamar, portanto, não significa que o objetivo perdeu sua relevância.
Significa que o espaço para alcançá-lo se tornou mais estreito e que as decisões tomadas agora determinarão a intensidade e a duração do período de aquecimento acima desse limite. Cada ano de emissões elevadas reduz esse espaço. Segundo o PNUMA, a cada cinco anos de emissões altas, o pico de aquecimento pode aumentar cerca de 0,1°C.
Mesmo uma ultrapassagem limitada terá impactos significativos. O aumento das temperaturas intensifica eventos extremos, perdas de biodiversidade, insegurança alimentar e hídrica, elevação do nível do mar e danos à saúde e aos meios de vida.
É justamente nesse ponto que a crise climática deixa de ser apenas uma questão ambiental e passa a ser também uma questão de direitos humanos.
As mudanças climáticas afetam diretamente os direitos fundamentais. O aumento das temperaturas e a intensificação de eventos extremos podem pressionar sistemas de saúde e ampliar riscos relacionados ao calor, a doenças, à desnutrição e a problemas respiratórios. A redução da disponibilidade de água compromete o abastecimento e atividades agrícolas e econômicas. Secas e alterações nos regimes de chuva podem afetar a produção de alimentos e, consequentemente, o direito à alimentação.
Eventos extremos também podem destruir casas, infraestrutura e equipamentos públicos. Enchentes, erosão, secas prolongadas e elevação do nível do mar podem tornar determinados territórios mais difíceis ou impossíveis de habitar, provocando deslocamentos e afetando direitos como moradia, saúde, alimentação, água e permanência no território.
Os impactos não são distribuídos de maneira uniforme. Populações que historicamente contribuíram menos para o aquecimento global estão entre as mais expostas aos efeitos da crise climática. Povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais, afrodescendentes, crianças e adolescentes, pessoas idosas, pessoas com deficiência, populações de baixa renda e pessoas que vivem em territórios vulnerabilizados podem enfrentar riscos maiores diante de secas, enchentes, ondas de calor, incêndios, insegurança alimentar e deslocamentos.
Quando uma comunidade é removida de seu território, por exemplo, não estão necessariamente em jogo apenas casa e renda. Também podem ser afetados vínculos comunitários, práticas culturais, formas de trabalho e relações construídas historicamente com o território.
Por isso, a emergência climática também envolve direitos à participação, à informação e ao acesso à justiça. Uma política climática baseada em direitos humanos precisa garantir que as pessoas afetadas possam participar das decisões que determinam o futuro de seus territórios e tenham mecanismos para reivindicar proteção, responsabilização e reparação.
O relatório do PNUMA chama atenção para outro aspecto importante: voltar a ficar abaixo de 1,5°C é teoricamente possível, mas não significa simplesmente desfazer os danos provocados pelo aquecimento.
Para que isso aconteça, seriam necessárias reduções rápidas e profundas das emissões de gases de efeito estufa, o abandono progressivo dos combustíveis fósseis a caminho de uma transição justa e, posteriormente, períodos prolongados de emissões líquidas negativas de dióxido de carbono.
Além disso, alguns impactos podem persistir mesmo depois de uma eventual queda das temperaturas. Quanto maior a temperatura máxima alcançada e quanto mais longa for a permanência acima de 1,5°C, maiores são os riscos de perdas irreversíveis ou de mudanças difíceis de reverter em determinados ecossistemas.
Os sinais já são observáveis. Entre 2023 e 2025, mais de 80% dos recifes de coral tropicais passaram por eventos de branqueamento. Acima de 1,5°C, também aumentam os riscos de perda de ecossistemas e de pontos de não retorno em sistemas naturais importantes, como a Amazônia.
O cenário descrito pelo PNUMA não significa que a ação climática perdeu sua razão de ser. Ao contrário: cada fração de grau evitada reduz riscos, e limitar a duração do período acima de 1,5°C pode diminuir a possibilidade de danos irreversíveis.
Isso exige combinar duas frentes que muitas vezes são tratadas separadamente: mitigação e adaptação.
Mitigar significa reduzir rapidamente as emissões que provocam o aquecimento. Adaptar significa preparar cidades, sistemas de saúde, infraestrutura, agricultura e comunidades para impactos que já estão ocorrendo ou que não podem mais ser evitados.
Mas, sob uma perspectiva de direitos humanos, há ainda uma terceira dimensão: reparar e distribuir de forma justa os custos da crise.
A transição climática não acontece em um campo neutro. Países, empresas, comunidades e indivíduos têm responsabilidades e capacidades diferentes. As consequências também não são distribuídas igualmente.
Por isso, enfrentar o overshoot exige mais do que inovação tecnológica. Exige financiamento climático de qualidade protagonizado por países desenvolvidos, cooperação internacional, transferência de recursos e tecnologia, proteção social, participação das populações afetadas e mecanismos de responsabilização e reparação.
Uma transição para uma economia de baixo carbono também precisa ser justa. Isso significa considerar os efeitos das mudanças sobre trabalhadores, comunidades e populações que dependem de atividades intensivas em carbono, além de garantir que os benefícios da transição não sejam concentrados e que seus custos não sejam transferidos para quem já vive em situação de vulnerabilidade.
A crise climática coloca em questão direitos fundamentais e evidencia desigualdades já existentes. Quem tem menos recursos tende a ter menos capacidade de se proteger dos impactos, reconstruir sua vida depois de um desastre ou adaptar seu território às novas condições climáticas.
Nesse sentido, o overshoot não é apenas uma questão sobre a temperatura média do planeta. É também uma questão sobre quem terá condições de se proteger, quem poderá permanecer em seu território, quem será obrigado a se deslocar, quem perderá seus meios de subsistência e quem terá recursos para reconstruir depois de um desastre.
O relatório do PNUMA não afirma que tudo está perdido. Mas também não oferece uma trajetória confortável. Quanto mais alto for o pico de aquecimento e quanto mais tempo o planeta permanecer acima de 1,5°C, maiores serão os riscos e mais difícil será a adaptação.
A ciência coloca, portanto, uma questão que é também política e de direitos humanos: não se trata de se o mundo ultrapassará 1,5°C, mas quanto será ultrapassado, por quanto tempo e como os custos dessa trajetória serão distribuídos.
Manter aberta a possibilidade de retornar a um clima mais seguro depende das escolhas e mudanças estruturais feitas no presente. E, diante de uma crise cujos impactos recaem de forma desigual, limitar o aquecimento significa também proteger direitos, reduzir desigualdades e garantir que aqueles que menos contribuíram para a crise não sejam os que mais paguem por ela.