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Notícia
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18/08/2026

Plataformas digitais ainda falham na proteção da integridade das eleições, aponta estudo

Levantamento analisa políticas de redes sociais, aplicativos de mensagem e ferramentas de inteligência artificial para as eleições de 2026

Foto: Marcelo Casal Jr/Agência Brasil Foto: Marcelo Casal Jr/Agência Brasil


As principais plataformas digitais ainda apresentam lacunas importantes na proteção da integridade eleitoral no Brasil, especialmente diante da expansão do uso de inteligência artificial (IA) generativa. É o que aponta estudo da Sala de Articulação contra Desinformação (SAD).

O relatório é assinado por 66 organizações da sociedade civil, laboratórios e instituições de pesquisa, incluindo a Conectas, o Instituto Marielle Franco, a Data Privacy Brasil e o InternetLab.

O levantamento analisou as políticas de Facebook, Instagram, Kwai, LinkedIn, TikTok, X e YouTube, além de WhatsApp e Telegram e de cinco plataformas de inteligência artificial generativa: ChatGPT, Claude, Gemini, Llama e Grok. A pesquisa identificou problemas principalmente na acessibilidade das regras, nos canais de denúncia e na transparência sobre medidas específicas para as eleições brasileiras.

IA amplia desafios para as eleições

Um dos principais alertas do estudo é a falta de políticas eleitorais específicas e facilmente acessíveis para as ferramentas de IA. Llama e Grok não apresentam políticas eleitorais próprias identificáveis, enquanto as informações sobre o Gemini estão dispersas em diferentes páginas do Google. ChatGPT e Claude possuem políticas específicas, mas também apresentam lacunas de transparência sobre avaliações de risco, auditorias e efetividade das salvaguardas.

Segundo o estudo, a popularização da IA generativa modificou o ambiente informacional em relação às eleições de 2022. Ferramentas capazes de produzir textos, imagens, vídeos, áudios e agentes conversacionais em larga escala reduzem os custos de produção de conteúdos e ampliam riscos de desinformação, fraude de identidade, manipulação audiovisual e automação da comunicação política.

O levantamento aponta, por isso, a necessidade de incorporar as plataformas de IA ao debate regulatório eleitoral e de estabelecer mecanismos permanentes de governança, transparência e prestação de contas.

Redes sociais têm políticas mais desenvolvidas, mas ainda insuficientes

Entre as redes sociais, o cenário é considerado mais maduro, sobretudo no eixo da integridade eleitoral. YouTube, TikTok e Meta mantêm páginas que reúnem informações sobre políticas e processos de moderação aplicáveis às eleições. Ainda assim, o estudo aponta que as regras frequentemente estão dispersas em diferentes documentos e que existem diferenças significativas entre as plataformas sobre quais conteúdos devem ser removidos, rotulados ou ter seu alcance reduzido.

O tratamento da violência política de gênero e raça também apresenta lacunas. Facebook, Instagram, X, TikTok, YouTube e LinkedIn não reconhecem o fenômeno como categoria específica, recorrendo a políticas mais amplas sobre discurso de ódio, assédio, integridade eleitoral e desinformação. O Kwai é apontado como exceção por possuir uma política específica para violência política contra mulheres em contexto eleitoral, embora sem contemplar outras dimensões, como a raça.

Já a desinformação climática e socioambiental é pouco contemplada. Facebook, Instagram, X e LinkedIn não possuem políticas específicas para o tema. YouTube e Kwai apresentam medidas parciais, enquanto o TikTok é a única plataforma analisada que trata explicitamente do assunto, inclusive em suas regras de publicidade.

WhatsApp e Telegram apresentam diferenças

Entre os aplicativos de mensagem, o estudo identifica uma diferença significativa entre WhatsApp e Telegram. O WhatsApp possui uma política específica para eleições e adota mecanismos como limites para encaminhamento de mensagens, identificação de conteúdos encaminhados com frequência, restrições ao envio em massa e possibilidade de bloqueio e denúncia de contas.

Já o Telegram não possui política específica para eleições, recorrendo principalmente a regras gerais contra spam. O estudo também aponta uma lacuna comum às duas plataformas: não foram encontradas disposições específicas sobre o uso de chatbots, avatares e conteúdos sintéticos para simular a comunicação de candidaturas com pessoas reais, conforme previsto pela legislação eleitoral.

Falta de transparência é desafio transversal

A avaliação geral, realizada em julho de 2026, considerou três aspectos: acessibilidade das políticas, disponibilidade de canais de denúncia e transparência sobre as eleições brasileiras. Nenhuma das plataformas analisadas recebeu pontuação máxima nos três critérios. Meta e YouTube obtiveram as maiores médias, com 0,8, enquanto Telegram e Grok receberam média zero.

O estudo aponta que muitas plataformas não informam claramente a data de publicação ou atualização de suas regras, enquanto os procedimentos para denunciar conteúdos podem exigir a navegação por diferentes páginas. Essa dificuldade também limita a capacidade de pessoas usuárias, pesquisadoras, autoridades e organizações da sociedade civil de compreender as regras e fiscalizar sua aplicação.

Recomendações

Entre as recomendações apresentadas, estão a criação de páginas específicas e acessíveis sobre políticas eleitorais; o fortalecimento de canais de denúncia e contestação; a adoção de mecanismos padronizados para identificação e rastreabilidade de conteúdos produzidos por IA; e a realização de avaliações periódicas de impacto, auditorias independentes e testes de segurança.

O documento também recomenda que as plataformas reconheçam expressamente a violência política de gênero e raça e adotem protocolos específicos para preveni-la e enfrentá-la. Para a desinformação climática e socioambiental, defende políticas próprias, com critérios claros para contextualização, redução de alcance, desmonetização, restrição de publicidade ou remoção de conteúdos.

Ao Estado brasileiro, o estudo recomenda o aprimoramento dos mecanismos de transparência e prestação de contas das plataformas, o fortalecimento da educação midiática e da cidadania digital e a produção de dados sobre violência política de gênero e raça no ambiente digital. À Justiça Eleitoral, recomenda maior transparência sobre as salvaguardas adotadas pelas plataformas, preservação de dados e acesso supervisionado de pesquisadoras, pesquisadores e organizações da sociedade civil a informações necessárias à compreensão do ambiente informacional eleitoral.


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