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Notícia
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25/02/2026

Letalidade policial: quando a segurança pública se torna política de morte

Em 2025, mais de 6 mil pessoas morreram em ações policiais no Brasil. O estado de São Paulo registrou seu ano mais letal, com 834 mortes

Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil


Quando a segurança pública se torna uma política de morte? Os dados mais recentes do Ministério da Justiça revelam que, em 2025, o Brasil registrou 6.519 mortes decorrentes de ação policial, mantendo por quatro anos um patamar anual acima de seis mil vidas perdidas. Longe de se tratarem apenas de “fatalidades operacionais”, observa-se a consolidação de escolhas políticas que naturalizam a força letal como instrumento de gestão da segurança pública. Uma escolha com alto custo humano, democrático e econômico.

Em números absolutos, estados populosos e com grande presença policial historicamente concentram as ocorrências. Em outubro de 2025, uma operação policial nos complexos do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro, deixou 121 mortos, tornando-se a mais letal da história do estado. O número supera, inclusive, o massacre do Carandiru, ocorrido em 1992, quando 111 pessoas foram mortas dentro da Casa de Detenção de São Paulo.

Nesse cenário, Bahia e Rio de Janeiro têm alternado a liderança, enquanto São Paulo, Pará e Ceará costumam figurar entre os primeiros colocados. 

Quando se observa a taxa por 100 mil habitantes, a radiografia muda: unidades federativas menores e com conflitos localizados (a exemplo de Amapá, Sergipe, Goiás ou o próprio Pará em determinados períodos) tendem a despontar, revelando que a intensidade da violência não está apenas no tamanho das polícias, mas no tipo de operação autorizada, no desenho dos incentivos internos e no grau de controle civil exercido.

Sinais políticos vindos do topo como o tom do discurso público, a tolerância com “excessos” e a prioridade orçamentária para operações ostensivas em detrimento de investigação, criam um ambiente em que chefias estaduais e comandos intermediários sentem-se autorizados a expandir o uso da força. O resultado é homogêneo na lógica e heterogêneo na expressão: de megaoperações em áreas urbanas densas a incursões repetidas em municípios médios, com picos de letalidade após mortes de agentes ou em ciclos de “varredura” territorial.

O ano mais letal do estado de São Paulo

Em São Paulo, os números divulgados pela Secretaria da Segurança Pública confirmam a tendência nacional: 2025 foi o ano mais letal do estado nos últimos seis, com 834 mortes.

Outro fenômeno mostra que a letalidade já não se concentra apenas na capital ou litoral: cresce a participação relativa de batalhões do interior. Em 2025, 40% das mortes foram em cidades interioranas; em 2024, esse índice havia ficado em 31,7%. A expansão da letalidade ao interior foi puxada, principalmente, pelas regiões de Campinas e de Piracicaba. Em geral, os surtos ocorrem em operações prolongadas, deflagradas após eventos de grande repercussão, com pouca transparência sobre planejamento, objetivos, regras de engajamento e avaliação de resultados.

A experiência local também demonstra que políticas baseadas em evidências salvam vidas. Onde câmeras corporais foram adotadas com ampla cobertura, gravação ininterrupta, governança civil e critérios técnicos, houve redução de letalidade e de denúncias de abuso. Quando tais iniciativas sofrem retrocessos, a curva volta a subir, mostrando como decisões administrativas seguem determinando uma política de segurança que privilegia a morte em detrimento à vida.

O padrão da letalidade

O perfil das vítimas repete o padrão nacional: maioria de jovens negros, moradores de periferias e favelas, frequentemente alvos de abordagens motivadas por estereótipos de raça e território. Essa seletividade evidencia que a letalidade policial é uma política que define quais vidas são mais expostas ao risco letal nas interações com o Estado. Ao mesmo tempo, a baixa taxa de elucidação de homicídios e a fragilidade de investigações independentes em casos de morte por intervenção policial alimentam a impunidade e desorganizam a própria capacidade estatal de reduzir o crime.

A sustentação desse modelo se apoia em três pilares: operações de choque repetidas como resposta quase exclusiva a problemas complexos; dados pouco transparentes, que atrasam o controle social e dificultam comparações; e accountability ineficiente, com investigações que demoram, perícias vinculadas aos órgãos policiais, que sequer preservam adequadamente cenas e pouca responsabilização efetiva. Nos estados que combinam esses fatores a discursos oficiais de “licença para agir”, a incidência de mortes tende a disparar, e assim permanecem no topo do ranking ano após ano.

A insistência na força letal não entrega o que promete. Estudos no Brasil e fora demonstram que mais mortes não significam menos crimes. Ao contrário: agravam a desconfiança entre comunidades e Estado, enfraquecem a prevenção, dificultam investigações e retroalimentam ciclos de violência.

No plano jurídico, o quadro afronta a Constituição de 1988 e os padrões internacionais de direitos humanos, que impõem legalidade, necessidade, proporcionalidade, precaução e prestação de contas no uso da força. Cada operação que termina em morte e não é investigada, de forma imediata e independente, sinaliza tolerância institucional ao inaceitável.

O número de mortes anuais em ações policiais no Brasil não pode ser visto como um dado trivial. Romper com esse ciclo exige pressões em âmbitos nacionais e internacionais, por isso seguimos em articulação e incidência. A implementação de políticas públicas que reduzam a letalidade depende de escolhas governamentais que precisam ser submetidas ao controle democrático e judicial. O desafio é construir uma segurança pública que esteja alinhada aos princípios democráticos, assegurando direitos e preservando vidas.

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