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02/04/2026

Cheiro de Diesel: filme expõe a violência de Estado na Maré e na Penha

Em entrevista a Conectas diretoras do documentário falam sobre a luta de moradores por memória e acesso à justiça



“O nosso país é, na sua estrutura, um país racista. As populações negras e pobres continuam sem qualquer tipo de direitos humanos básicos.”

A afirmação de Gizele Martins, uma das diretoras do documentário Cheiro de Diesel, traduz com precisão a realidade de territórios onde a segurança pública opera sob lógicas que produzem morte e violação de direitos.

Vencedor do Festival do Rio 2025, um dos maiores eventos de cinema da América Latina, o longa-metragem dirigido por Gizele Martins e Natasha Neri lança luz sobre uma realidade que moradores de favelas como a Maré e a Penha conhecem há décadas: a militarização não como exceção, mas como política recorrente de controle, violência e negação de direitos.

O filme retrata os impactos da presença armada do Estado sobre a vida de moradores da zona norte do Rio de Janeiro durante períodos de ocupação militar e de vigência do decreto federal de Garantia da Lei e da Ordem (GLO), entre 2014 e 2015, além das ações das Forças Armadas entre 2017 e 2018.

A partir de relatos de moradores sobre operações, ocupações militares, tortura, violações de direitos e impunidade, o documentário evidencia como a presença armada do Estado transforma de forma permanente a vida nas favelas, produzindo marcas duradouras nos territórios e em suas famílias.

“O medo, pesadelos, depressão e sintomas de estresse pós-traumático são comuns em pessoas afetadas pela violência de estado, e são ainda mais graves nos crimes praticados por militares das Forças Armadas, uma vez que as vítimas de tortura e maus tratos costumam ser levadas para batalhões militares amtes de serem apresentadas em delegacias”, afirma Natasha Neri, também diretora do longa.

Cheiro de Diesel expõe a ligação entre racismo estrutural, letalidade policial, impunidade e negação de direitos.  Em um contexto em que o Rio de Janeiro segue marcado por chacinas, denúncias de obstrução de investigações e cobranças por verdade, justiça e reparação, o filme também disputa narrativas, colocando no centro as vozes de quem vive a violência de Estado.

Nesta entrevista à Conectas, Gizele Martins e Natasha Neri refletem sobre o filme como instrumento de memória, denúncia e enfrentamento à violência institucional. E sobre o que precisa mudar para romper a lógica que trata as favelas como territórios de guerra.

Conectas: Em Cheiro de Diesel, a militarização aparece não como episódio isolado, mas como política recorrente nas favelas. Que leitura o filme faz sobre a relação entre presença armada do Estado, racismo estrutural e produção contínua de violência nesses territórios?

Gizele Martins: O nosso país é na sua estrutura um país racista. As populações negras e pobres continuam sem qualquer tipo de direitos humanos básicos. As favelas e as periferias são frutos dessa desigualdade, nós favelados construímos e reconstruímos as favelas sem qualquer tipo de direitos. O Estado brasileira, no lugar de garantir direito à vida, eles têm como papel controlar nossas vidas e nossos territórios. A militarização é parte desse processo de controle de vidas e territórios. Esta é mais uma ferramenta de controle de corpos e territórios. Ou seja, a militarização é uma política de matar, não é ocasional.

Conectas: O documentário mostra como operações e ocupações deixam marcas permanentes na vida de moradores da Maré e da Penha. Na sua avaliação, quais são os impactos mais profundos e menos visíveis da violência policial para quem vive essas experiências no cotidiano?

Natasha Neri: Imaginem ter tanques de guerra na porta de casa, barricadas no caminho de casa para o trabalho ou para a escola, e passar por revistas em checkpoints com militares das Forças Armadas. Um cenário de guerra, mas que infelizmente foi a realidade cotidiana de milhares de moradores das favelas da Maré, ocupadas pelas Forças Armadas por 1 ano e três meses, entre abril de 2014, às vésperas da Copa do Mundo, e junho de 2015, e também das dezenas de favelas invadidas por soldados durante a GLO da Operação Rio de Janeiro, entre julho de 2017 e dezembro de 2018.

Os traumas cotidianos causados pela presença de militares fortemente armados e tanques de guerra nas vidas dos moradores de favelas foram e seguem invisibilizados. O filme busca trazer à tona as camadas das violências psicológicas, das ameaças, da censura sofrida por moradores  e defensores de direitos humanos, as abordagens violentas, a tortura e o abuso de poder praticados por militares das Forças Armadas. O documentário faz uso de recursos estéticos e narrativos que realçam a sensorialidade das violações sofridas, a partir das memórias dos personagens e da permanência das marcas das violências e da ausência de acesso à justiça em suas vidas.

O medo, pesadelos, depressão e sintomas de estresse pós-traumático são comuns em pessoas afetadas pela violência de estado, e são ainda mais graves nos crimes praticados por militares das Forças Armadas, uma vez que as vítimas de tortura e maus tratos costumam ser levadas para batalhões militares amtes de serem apresentadas em delegacias, como aconteceu com os jovens tortruados no caso da Sala Vermelha. 

Além disso, as familiares de vítimas das Forças Armadas tem muito mais dificuldades de acesso à informação, participação nos procedimentos e a responsabilização penal dos agentes, uma vez que os procedimentos investigatórios e processos ficam no âmbito da Justiça Militar, a partir de uma série de mudanças na lei, como a Lei 13491/2017, sancionada pelo então presidente Michel Temer, que transferiu a competência dos crimes praticados por militares das Forças Armadas contra civis para a jurisdição militar, inclusive os homicídios, contrariando decisões da Corte Interamericana de Direitos Humanos e as normativas internacionais de direitos humanos e acesso à justiça a vítimas de abuso de poder.

A ausência de informações sobre as investigações, responsabilização penal dos agentes e reparação são violações de direitos constantes enfrentadas pelas vítimas nos casos de crimes praticados por militares das Forças Armadas, vulnerabilizando ainda mais as famílias, agravando e perpetuando o trauma sofrido, diante de anos de busca por informações básicas sobre os casos e o arquivamento dos mesmos.

Conectas: Quando a Justiça Militar arquiva casos ou quando a versão oficial prevalece sobre o relato das vítimas, que mensagem o Estado transmite para as famílias e para os moradores desses territórios?

Gizele Martins: O filme trabalha a ideia de que todos nós favelados somos vítimas desse processo de militarização e controle. Os familiares que tiveram vítimas fatais sofrem com inúmeros processos, provar que eles têm nome, tem sobrenome e moram em algum lugar. Sofrem para provar que nenhum negro, nem um favelado deve ser assassinado num país que tem em sua cartilha a garantia do direito à vida. O arquivamento dos casos, é só mais uma etapa desse processo truculento do Estado, mais uma etapa dessa falta de respeito aos familiares. Arquivar é mostrar poder, é mostrar que nossos mortos não têm voz.

Conectas: Muitas vezes, os relatos de familiares, sobreviventes e moradores são deslegitimados, enquanto a narrativa policial ganha presunção de verdade. Como o cinema documental pode funcionar como instrumento de memória, de produção de prova social e de enfrentamento dessa disputa desigual de narrativa?

Natasha Neri: As ocupações das Forças Armadas em favelas são comumente apoiadas pela mídia corporativa e pela população branca e moradora do asfalto, pois vende-se a ideia de uma suposta “pacificação”, quando, na verdade, os moradores sofrem diversas violações de direitos humanos nas portas de sua casa, sendo submetidos ao terror de uma máquina de guerra que não deveria ser usada no policiamento urbano. A cobertura midiática dessas ocupações das Forças Armadas geralmente olha para as favelas de fora e do alto de helicópteros, como retratado no filme, construindo uma narrativa de que as ocupações seriam retomadas de territórios e trariam uma suposta sensação de segurança. 

Ademais, nos procedimentos investigatórios e judiciais predominam as versões apresentadas pelos militares. Os inquéritos policiais militares são conduzidos por militares das Forças Armadas, que não tem independência nem imparcialidade necessárias para que haja uma investigação eficaz, e os poucos casos que chegam a um tribunal militar são julgados por 5 juízes militares e um civil.  O resultado disso é que nenhum dos casos retratados no filme teve a devida investigação, tal como a Chacina do Salgueiro, que vitimou 8 pessoas, quando soldados fantasmas do Exército escondidos numa mata atiraram contra moradores. Já o caso da Sala Vermelha, em que 11 jovens foram barbaramente torturados na Penha e em um quartel na base militar de Deodoro, as investigações foram arquivadas, apesar de os exames de torgtura e maus tratos terem comprovado os atos de tortura, a  partir da implementação das diretrizes do Protocolo de Istambul. No caso de Vitor Santiago, o cabo que atirou contra o carro em que o jovem estava, em fevereiro de 2015, na Maré, foi inocentado no julgamento da Justiça Militar, em 2020. 

Nosso filme retrata o cotidiano violento da militarização a partir do olhar e da experiência de vida de moradores de diversas favelas ocupadas, como a Maré, a Penha, o Alemão, o Salgueiro (em São Gonçalo) e Acari, as quais sofreram com as mega-operações das Forças Armadas. As vozes tradicionalmente silenciadas pelo Estado e ignoradas pela grande mídia são a fonte principal do filme. As diretoras acompanharam desde 2014 os impactos da militarização das Forças Armadas nas favelas retratadas no filme e trazem à tona as vozes de quem sofreu na pele violências e censura impostas pelas Forças Armadas. Buscamos, assim, colaborar para a construção da memória das violações sofridas pelos moradores de favelas em GLOs, assim como colaborar para a luta por justiça e reparação para as famílias vitimadas.

Conectas: Se o filme convoca a sociedade a reconhecer que há uma “ditadura dentro da democracia” nas favelas, quais seriam, para você, os passos mais urgentes para romper esse ciclo — no campo da justiça, do controle das forças de segurança e da reparação às vítimas?

Gizele Martins: Primeiro, o Brasil precisa reparar às populações indígenas e negras deste país. Precisa reparar todos nós que vivemos hoje nos territórios de resistência. Ainda vivemos com o mínimo. Depois, reconhecer que existem genocídios no território brasileiro e que há uma política de militarização para controle de corpos e territórios. Os crimes da escravatura, os crimes da ditadura precisam ser reconhecidos e reparados. Com isto, precisamos também que as favelas sejam vistas como esse lugar em que ainda tem resquícios da escravatura e da ditadura continuada…

Natasha Neri: Considero que Operações de Garantia da Lei e da Ordem não deviam ser decretadas para o uso das Forças Armadas em contextos de policiamento urbano, uma vez que esse não é o dever constitucional dos militares. Além disso, o STF deveria julgar inconstitucionais as legislações recentes que transferiram a competência de julgamento dos casos de crimes cometidos por soldados contra civis e por civis contra militares para a Justiça Militar, nas ADIs 5.032 e 5804 e na ADPF 289.

Além disso, as vítimas e familiares de pessoas afetadas pelas violências praticadas pelas Forças Armadas têm o direito de receber reparação integral, incluindo compensação financeira, apoio psicossocial, pedidos de desculpas e o reconhecimento do estado brasileiro por essas violências. Se vivemos uma democracia, o estado brasileiro não pode ser conivente com a permanência de práticas autoritárias pelas Forças Armadas e tem a obrigação de reparar as vítimas e prevenir novas violências, deixando de usar militares federais no policiamento urbano. As favelas não podem mais ser laboratórios da necropolítica nem palanque eleitoral em ano de eleições ou de megaeventos. A favela quer viver, livre de tanques e de soldados em sua porta. 

Saiba mais

Sobre as diretoras

Natasha Neri é jornalista, cineasta, mestre em Antropologia e em Direitos Humanos e pesquisadora em Justiça Criminal. Dirigiu o longa Auto de Resistência, ganhador do É Tudo Verdade (2018), qualificado para o Oscar de Melhor Documentário e indicado ao Prêmio de Direitos Humanos do IDFA, além de mais de 20 curtas de impacto.

Gizele Martins, nascida e criada na Favela da Maré, é jornalista, Doutora em Comunicação, comunicadora comunitária e defensora de direitos humanos. Vencedora do Prêmio Vladimir Herzog (2024), é autora do livro “Militarização e Censura – A luta por liberdade de expressão na Favela da Maré”. CHEIRO DE DIESEL é seu primeiro filme.

Sobre o filme

O documentário “Cheiro de Diesel” teve sua estreia nacional no dia 2 de abril. Em São Paulo, está sendo exibido no Espaço Petrobras de Cinema.

Ingressos à venda neste link

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