Sala do Conselho de Direitos Humanos da ONU
Mais de 40 organizações da sociedade civil brasileira, entre elas a Conectas, enviaram uma carta à Organização das Nações Unidas (ONU) defendendo que o Conselho Nacional dos Direitos Humanos (CNDH) seja reconhecido como a instituição nacional de direitos humanos do Brasil. O documento foi encaminhado à Aliança Global de Instituições Nacionais de Direitos Humanos (GANHRI), no contexto do processo internacional de acreditação previsto para 2026.
A iniciativa reacende um debate fundamental para a democracia brasileira: qual é o papel do CNDH na promoção e proteção dos direitos humanos no país?
Em um Brasil ainda marcado por profundas desigualdades e recorrentes violações de direitos humanos, a existência de um órgão público dedicado à defesa dos direitos fundamentais é considerada essencial para fortalecer mecanismos de participação social, monitoramento de políticas públicas e responsabilização do Estado. É nesse contexto que o Conselho Nacional dos Direitos Humanos ocupa uma posição estratégica.
Criado pela Lei nº 12.986, de 2014, o CNDH é resultado de uma longa trajetória de construção institucional e participação social no campo dos direitos humanos. Seu mandato inclui a prevenção e o enfrentamento de violações, a fiscalização de situações de risco, o acompanhamento de políticas públicas e a formulação de recomendações aos poderes públicos.
O diferencial do Conselho está na combinação entre autonomia institucional e pluralidade. Sua composição reúne representantes do Estado e da sociedade civil, permitindo que denúncias, demandas e conflitos sociais sejam analisados por uma instância pública com capacidade de monitoramento e incidência. Essa característica tem sido fundamental em temas como letalidade policial, sistema prisional, direitos dos povos indígenas e quilombolas, proteção de defensoras e defensores de direitos humanos, racismo estrutural, violência no campo e garantia de direitos sociais.
Na carta enviada à ONU, as organizações argumentam que o CNDH é o único órgão criado pelo Estado brasileiro com a finalidade específica de promover e proteger os direitos humanos. Embora outras instituições públicas desempenhem funções relevantes nessa agenda, o documento sustenta que nenhuma delas foi concebida, por lei, para exercer esse papel de forma própria, permanente, plural e autônoma.
Para as entidades signatárias, reconhecer o Conselho como instituição nacional de direitos humanos significa fortalecer um espaço público voltado ao recebimento de denúncias, à fiscalização de violações e à cobrança de respostas do Estado diante de situações que afetam direitos fundamentais.
Para organizações como a Conectas Direitos Humanos, o CNDH também desempenha um papel importante na articulação entre sociedade civil e poder público. Em áreas como litígio estratégico, incidência internacional, monitoramento de políticas públicas e combate a violações de direitos, o Conselho contribui para dar visibilidade a padrões de violência, conectar casos concretos às obrigações internacionais assumidas pelo Brasil e ampliar a participação social na formulação de respostas institucionais.
A atual diretora-executiva da Conectas, Camila Asano, integrou o Conselho como conselheira suplente entre 2018 e 2020.
Em um cenário de desafios persistentes para a proteção dos direitos humanos, a defesa do CNDH ultrapassa uma discussão institucional. Trata-se do fortalecimento de um mecanismo criado para acompanhar violações, promover direitos e contribuir para que o Estado brasileiro cumpra seus compromissos constitucionais e internacionais.
O Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH) mantém um diálogo contínuo com os mecanismos do Sistema Internacional de Direitos Humanos, incluindo a ONU e a OEA, por meio de missões conjuntas e do monitoramento de violações estruturais. Essa articulação estratégica envolve o envio regular de relatórios, o acionamento de medidas cautelares e a cobrança ativa pela implementação de recomendações globais no Brasil. Assim, o conselho atua diretamente para alinhar as políticas públicas nacionais aos tratados internacionais e fortalecer a proteção das garantias fundamentais no país.
Nesse sentido, a mobilização das organizações da sociedade civil em torno do reconhecimento internacional do Conselho reforça a compreensão de que democracia e direitos humanos dependem da existência de instituições capazes de atuar com autonomia, participação social e compromisso permanente com a dignidade humana.