Chuvas atingem Zona da Mata mineira. Foto: Pablo Porciuncula/AFP
Com 72 mortes confirmadas até o dia 08 de março, a tragédia provocada pelas chuvas da última semana de fevereiro na Zona da Mata Mineira (MG) já é o quarto maior desastre causado por chuvas no Brasil na última década. Em Juiz de Fora, as chuvas intensas provocaram enchentes, deslizamentos e destruição, resultando em dezenas de mortes. Em Ubá, vizinha na mesma região, o cenário se repete. Às famílias em luto, às pessoas feridas, desabrigadas e desalojadas, expressamos nossa solidariedade mais profunda, com a reafirmação de que cada vida perdida importa, e de que perdas assim não podem ser naturalizadas.
O luto que atravessa a Zona da Mata Mineira não é um episódio isolado. É, antes, o retrato de uma combinação entre emergência climática, ocupação urbana desigual, degradação ambiental e falhas persistentes de prevenção e resposta do poder público.
Minas Gerais carrega um histórico doloroso de grandes tragédias socioambientais: os rompimentos das barragens em Mariana (2015) e Brumadinho (2019), se destacam como alguns dos maiores desastres ambientais da nossa história. Esse passado evidencia um padrão de negligência diante de riscos conhecidos, que seguem cobrando vidas, sobretudo das populações historicamente vulnerabilizadas.
Com as recentes chuvas, se havia algum espaço para surpresa, os dados o eliminaram. O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) vem contabilizando e alertando, reiteradamente, sobre a instabilidade do solo e a recorrência de deslizamentos em Juiz de Fora, uma das regiões mais atingidas. A cidade ocupa o nono lugar no ranking de municípios com maior população em área de risco no Brasil: são 130 mil pessoas vivendo em encostas.
Mesmo neste cenário, o governo de Minas Gerais protagonizou um corte de 96% no investimento estadual para prevenção contra impactos da chuva. O valor empenhado caiu de R$ 135 milhões em 2023 para R$ 6 milhões em 2025, para atender os 21 milhões de habitantes do segundo estado mais populoso do país. Em 2025, 97% dessa verba foi destinada apenas para atenuar danos em estradas, não na proteção da vida humana.
O problema vai muito além de redução de orçamento. Em 2021, apenas 38% dos 853 municípios do estado de Minas Gerais possuíam um plano diretor. Enquanto um instrumento fundamental para a prevenção, no Brasil, somente 28% dos planos diretores contam com planejamento para prevenir enchentes ou inundações.
O ciclo de promessas que não chegam ao território também precisa ser enfrentado. Segundo reportagens da Folha e do Estado de Minas, um termo de compromisso para obras preventivas foi assinado em julho de 2024, mas a tramitação travou em exigências e ajustes burocráticos. Como informou o Brasil 247, o parecer técnico solicitou compatibilização com um programa federal de gestão de riscos e desastres. O prazo foi prorrogado quatro vezes, enquanto documentos importantes como anteprojeto, projeto básico, termo de referência do edital e declaração de sustentabilidade, não saíram do papel. Entre o alerta e a obra, instalou-se um abismo que a chuva atravessou primeiro. Essa distância entre planejamento e execução é, hoje, uma linha tênue entre a vida e a morte.
E contraditoriamente, em dezembro de 2025, o Conselho Municipal do Meio Ambiente (COMAM) de Belo Horizonte aprovou a norma que institui a “Renovação Expressa da Licença Ambiental”, sob o argumento de compatibilidade com a Lei Geral do Licenciamento Ambiental (Lei nº 15.190/2025), lei essa proveniente do chamado “PL da Devastação”, um dos maiores ataques à políticas socioambientais desde a redemocratização e colocando em curso o movimento de desmonte do principal instrumento de proteção e controle ambiental no Brasil. Sob a justificativa de “modernização” e “agilidade”, novas regras têm enfraquecido etapas fundamentais de avaliação e fiscalização, comprometendo a proteção ambiental e os direitos humanos.
A adaptação climática deixou de ser uma pauta do futuro, tornou-se uma necessidade concreta e mensurável. No plano internacional, a COP30 reforçou essa urgência ao aprovar o texto de Meta Global de Adaptação (GGA, na sigla em inglês) e reconhecer, de forma inédita, povos afrodescendentes; aprovou-se também o texto de Planos Nacionais de Adaptação (NAPs, na sigla em inglês). Essas decisões resultam de um esforço coletivo, em especial de organizações da sociedade civil e movimentos sociais do Sul Global, que atuam de forma persistente para que a urgência da adaptação se traduza em medidas concretas em nossos territórios.
A nível nacional, em dezembro de 2025, o Comitê Interministerial sobre Mudança do Clima – CIM aprovou o Plano Clima 2024–2035, principal instrumento para orientar a resposta do Brasil à crise climática até 2035. A Conectas participou ativamente do processo ao lado de uma mobilização de organizações socioambientais e de direitos humanos para apresentar contribuições às Estratégias Nacionais de Mitigação e de Adaptação, aos Planos Setoriais de Mitigação e aos Planos Setoriais e Temáticos de Adaptação por meio da plataforma Brasil Participativo e manteve diálogo permanente com representantes do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) e com a Diretoria de Políticas para Adaptação e Resiliência Climática, participando de inúmeras reuniões desde o início da formulação do Plano, sempre com o objetivo de colocar os direitos humanos no centro da ação climática.
Adaptação climática é também reduzir vulnerabilidades sociais, porque desastres climáticos não atingem todos por igual, pelo contrário, apenas evidenciam o racismo ambiental. Soluções baseadas na natureza e nos saberes de quem a defende, como povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais, somadas à participação social, deveriam ser pontos de partida em qualquer plano de adaptação. Também é hora de enfrentar determinantes estruturais. O modelo de expansão urbana que empurra trabalhadores para áreas instáveis e alimenta a especulação imobiliária; a supressão de vegetação; a precariedade habitacional que persiste década após década; a negligência frente às atividades econômicas de alto impacto – constroem essa vulnerabilidade climática. Setores públicos e privados têm deveres de prevenção e de reparação. Em Minas, onde a mineração desenhou desastres sem precedentes, a responsabilidade socioambiental não pode ser retórica: ela se mede por investimentos consistentes em segurança, mitigação e adaptação nos territórios afetados direta e indiretamente por cadeias produtivas.
As chuvas e outros fenômenos do clima ensinam lições que insistimos em não aprender: sem adaptação não há caminho de enfrentamento à crise climática.
Às famílias de toda a região da Zona da Mata Mineira, nosso respeito e solidariedade. Aos gestores, o chamado à responsabilidade e à ação baseada em evidências. À nós enquanto sociedade, o convite ao controle social e à participação que transforme luto de tragédias em mudança estrutural.